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Os primeiros sinais do Sporting de Rúben Amorim

A contratação de Rúben Amorim por parte do Sporting CP, no mês de março, causou grande surpresa em torno da comunidade futebolística portuguesa. Desde logo pelos elevados valores envolvidos neste negócio, altamente atípicos nas habituais transferências de treinadores mas, ainda mais, pelo facto de se tratar de uma transferência interna e de um treinador ainda muito jovem, com uma carreira curta.

 

Consequentemente, a expetativa aumentou junto dos adeptos leoninos para perceber se será o treinador que consegue, finalmente, catapultar o Sporting para outros patamares e conquistar títulos, nomeadamente o tão desejado campeonato nacional. Ainda assim, quando chegou, o Sporting já se encontrava arredado da luta por qualquer título, portanto, podemos afirmar que esta sua fase tem servido um pouco como “pré-época”, o que é positivo para fazer um planeamento mais rigoroso, organizado, bem como para definir quem será aposta, terá um lugar no plantel e, porventura, no 11 inicial e, em sentido contrário, quem sairá no próximo mercado de transferências, abrindo espaço para novas entradas e potenciais reforços.

 

Nestes primeiros tempos de leão ao peito, é notória a aposta que tem sido feita pelo treinador em jovens provenientes da formação, surgindo logo à cabeça os nomes de Luís Maximiano, Eduardo Quaresma, Nuno Mendes, Matheus Nunes, Jovane Cabral, Joelson, Tiago Tomás, assim como de outros que foram adquiridos (Gonzalo Plata e Rafael Camacho), o que pode ser visto como um indicador de mudança de paradigma no clube de Alvalade, voltando atenções para a academia de Alcochete, já que, nos últimos anos, não tem sido muito feliz nas contratações que faz, algumas até bastante dispendiosas e com pouco proveito.

 

No que ao modelo tático e ideias de jogo dizem respeito, Rúben Amorim manteve o sistema que colocava no SC Braga, o 3x4x3 com dinâmicas e movimentos que, tanto permitem colocar um elevado número de homens nas ações ofensivas como equilibrar rapidamente a equipa nas transições defensivas e na própria organização. É percetível a ideia de sair com bola desde trás, embora isso não tenha sido muito fácil nos últimos jogos, uma vez que Mathieu terminou a carreira, devido a grave lesão, e era, sem sombra de dúvida, o melhor elemento nesse aspeto. No entanto, Eduardo Quaresma e Acuña (ultimamente utilizado como central na esquerda) têm qualidade para esse processo. Nas laterais, Nuno Mendes tem sido uma agradável surpresa, muito veloz, sem medo de ir para cima do oponente, associativo, oferecendo bastante profundidade e chegada ao último terço, o que é necessário no modelo de Amorim. Já no meio campo, nota-se claramente a preponderância de Wendel, quer no transporte de bola quer na criatividade e na possibilidade de jogo interior. Todavia, nesta altura, parece-me ser o único jogador com capacidade para ser titular, os restantes estão num nível muito abaixo do pretendido. Os extremos, embora com qualidade, especialmente Jovane que voltou num nível muito elevado, com grandes golos e um jogo muito pautado pela irreverência, força e velocidade, apostam essencialmente em zonas exteriores, o que tem causado dificuldades ao Sporting em explorar e, posteriormente, penetrar por zonas interiores. Esta é uma das grandes diferenças no modelo de Amorim em comparação com o trabalho realizado no SC Braga, aí com extremos que procuravam muito o jogo interior e permitiam uma maior variabilidade de combinações. Na frente de ataque, Sporar precisa ainda de limar algumas arestas. Tem qualidade a jogar no apoio, quando necessário tem permitido também esticar o jogo, mas falta maior faro de golo, agressividade em zonas de finalização e mais presença. O modelo tem ainda vários aspetos que necessitam de evolução e melhorias, mais especificamente o espaço nas costas dos médios, existindo um grande distanciamento entre a linha defensiva e a linha intermediária, a pouca disponibilidade defensiva dos extremos, o que acentua as dificuldades na primeira fase de pressão, na reação à perda e na transição defensiva. Por fim, no aspeto mais ofensivo, a criação de oportunidades deverá ser outro parâmetro a trabalhar, com o objetivo de colocar a equipa com um futebol mais ofensivo e numa senda de vitórias.

 

É de salientar que todo este contexto atual é muito particular. A chegada do técnico deu-se, tal como mencionado acima, já com o Sporting apenas na luta pelo 3º lugar, o que, de certa forma, desinibiu estes jovens de pressão, oferecendo, ao mesmo tempo, outro tipo de abordagem e confiança. Na próxima época, o cenário será totalmente diferente, já que é previsível uma maior intromissão do Sporting entre Benfica e Porto. Para tal, serão imprescindíveis reforços, porque não é possível lutar pelo título ou aproximar dos rivais com o plantel atual. A aposta em jovens deverá ser conciliada com jogadores experientes. Nesse aspeto, mesmo com os possíveis regressos de Daniel Bragança e Gelson Dala para serem opções na equipa, na minha opinião, o Sporting precisa de vários reforços para os diferentes sectores: guarda-redes suplente para ajudar no crescimento de Max e ser solução válida em caso de algum problema, defesa central titular (para colmatar a brecha deixada por Mathieu) e suplente (num modelo com 3 centrais, é obrigatório ter mais 2/3 no plantel) , lateral direito titular (até agora, uma das grandes lacunas), médio box-to-box para acompanhar Wendel no meio campo, um extremo que incida mais no jogo interior (apenas Vietto no plantel atual) e um ponta de lança para fazer concorrência a Sporar ou até mesmo para ser titular e afirmar-se como um verdadeiro matador.

 

Para finalizar, gostaria de enaltecer a coragem de Rúben Amorim em apostar em jogadores tão jovens e, simultaneamente, a postura que tem tido, tanto no campo como nas conferências de imprensa, sempre com elevada assertividade, elevação e respeito por todos os intervenientes. Veremos quais as transformações e até que ponto este Sporting poderá chegar em 2020/2021.


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